AGROINDÚSTRIAS: Uma ‘sacada’ com a proteína animal

Quando o leitor pensa em cooperativas ligadas ao agronegócio, bem provavelmente o que vem de “bate pronto” na cabeça é imagem de um grande volume de grãos, silos cheios, maquinários em campo, colheita de soja.

Quando o leitor pensa em cooperativas ligadas ao agronegócio, bem provavelmente o que vem de “bate pronto” na cabeça é imagem de um grande volume de grãos, silos cheios, maquinários em campo, colheita de soja. Tudo isso, claro, está correto e é inerente ao setor. Mas, sem dúvida, o ano de 2017 mostrou que um olhar importante de diversas cooperativas para novos caminhos – mais especificamente – o setor de proteína animal.

Investimentos – É impressionante o nível de investimentos na cadeia recentemente, principalmente em aves, suínos e peixes, mas sem esquecer dos bovinos e leite. A grande sacada está em agregar valor aos produtos “carnes e lácteos”, mostrar aos paranaenses a qualidade deles frente aos grandes players do setor e, inclusive, bater de frente com os concorrentes no varejo, algo desafiador, mas necessário.

Empreendimentos – Basta uma passada pelo território estadual e não é difícil encontrar investimentos com cifras milionárias. Em Palotina, a C.Vale aplicou R$ 110 milhões e inaugurou na semana passada um abatedouro de tilápias. A Frimesa, uma central de cinco cooperativas filiadas, anunciou este mês um novo frigorífico de suínos em Assis Chateaubriand, que até 2030 atingirá um investimento que supera R$ 1 bilhão. Já a Copacol investiu R$ 50 milhões para ampliar seu abatedouro de tilápias em Nova Aurora – a maior planta da América Latina – e R$ 300 milhões para mais que duplicar o abate de frangos em sua unidade de Ubiratã. Alguns exemplos dentre outros investimentos que estão na edição desta semana da Folha Rural.

Foco – O superintendente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, salienta a importância das cooperativas ampliarem o foco de trabalho e acelerar o processo de agregação de valor aos produtos, o que é bem eficiente com as proteínas das carnes. “As cooperativas já abatem 2,2 milhões de frangos por dia, o que supera um terço do volume estadual. No caso dos suínos são quase 12 mil abatidos diariamente e a tilápia, temos próximo de 150 mil da Copacol e agora mais um início de 75 mil peixes por dia na C.Vale (a operação ainda não iniciou). Na pecuária de corte, que é um pouco mais complexa, temos a Cooperaliança em Guarapuava e a Maria Macia, em Campo Mourão, sem falar das plantas de leite no Centro-Sul”, elenca ele.

Valor agregado – Atualmente, de acordo com Mafioletti, 48% da receita do faturamento das cooperativas vem de produtos com valor agregado – da agroindústria – claro que não apenas ligados à proteína animal, mas vegetal também. “O interessante é que as carnes têm o que chamamos de elasticidade de renda. Quando melhora a renda da população, seja aqui ou no exterior, carnes e lácteos são mais consumidos, o que não acontece com outros produtos, que mesmo quando o preço abaixa, não reflete no consumo.”

Caminho – Com a “faca e o queijo na mão”, esse sem dúvida é o caminho que as cooperativas do agro vão seguir daqui para frente, um modelo que obviamente tem seus riscos, mas em contrapartida gera renda, inclusive para cooperados de pequenas propriedades. “A carne de peixe, por exemplo, ainda tem uma demanda pequena até devido ao preço elevado. A tendência é uma redução de valores e aumento do consumo e por isso as cooperativas vão continuar investindo. O plano PRC 100 (Paraná Cooperativo 100) também foca na ampliação da indústria e no varejo para aumentar a receita das cooperativas. Também temos ações de intercooperação, para que se ganhe escala nesse trabalho, mas com uma atuação em conjunta entre elas”.

Muito além da estrutura, foco também está no consumidor – E não é apenas atenção aos investimentos a nível estrutural que as cooperativas focam quando se pensa em produtos de maior valor agregado. O olhar também está no consumidor, nas gôndolas dos supermercados, e estratégias para que cada vez mais eles levem para casa produtos oriundos das cooperativas. Tudo com um planejamento estratégico seguido na risca.

Bússola – Recentemente, com o objetivo de usar como “bússola para traçar o caminho para a abertura e consolidação de mercados”, durante os Encontros dos Núcleos Cooperativos de 2017, foi apresentado um levantamento do Instituto Datacenso em relação ao cooperativismo e suas marcas junto a consumidores paranaenses. Assim, é possível direcionar ações de marketing específicas nos pontos de venda.

Entrevistas presenciais – No total, foram 1.023 entrevistas presenciais (523 consumidores e 500 não consumidores) em supermercados paranaenses realizadas em agosto, nas cidades de Curitiba, Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão e Pato Branco. Em 2008, já havia sido feita uma pesquisa com 814 consumidores.

Destaques – Dentre os principais destaques do levantamento, mais de 90% dos entrevistados elogiaram a qualidade dos produtos das cooperativas, mas acham que falta mais divulgação deles. Outro ponto é que 52,4% dos consumidores compram itens das cooperativas “com frequência”, percentual que cai para 34,6% entre os não consumidores, mas continua sendo significativo.

Percepção – O superintendente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, relata que as cooperativas tiveram essa percepção da boa aceitação dos produtos pelos consumidores, mas também nota a importância de investimentos em marketing para ganhar mais mercado. “Vamos discutir com as cooperativas os resultados para que elas façam trabalhos internos nesse sentido. No passado, existia um pensamento de que os nossos produtos eram bons, mas inferiores às grandes marcas. Nessa pesquisa nada disso foi demonstrado e estamos no mesmo nível da Nestlé, BRF, Coca-Cola, mas com a vantagem da nossa ligação com o interior do Estado, com o desenvolvimento regional e isso é que temos de explorar. Precisamos investir e ganhar espaço no mercado.”

Promoção da imagem – O coordenador de comunicação social da Ocepar, Samuel Milléo Filho, que fez uma das apresentações durante os Encontros dos Núcleos Cooperativos, destaca que o pilar de mercado do PRC 100 vislumbra desenvolver mercados, produtos e serviços, assim como a imagem do cooperativismo nesse cenário. “É uma determinação estudar formas de promover a imagem do cooperativismo, expandir os seus negócios nos mercados nacional e internacional e desenvolver o portfólio de produtos e serviços de maior valor agregado.”

Consolidadas – Dentre as cooperativas que já se mostram bem inseridas no varejo e se consolidaram na mente dos consumidores paranaenses, de acordo com a pesquisa, estão a Frimesa, em primeiro lugar, seguida da Copacol, Coamo e Cocamar, todas integrantes da Ocepar.

R$ 110 milhões investidos em um objetivo, diversificar – Com uma expertise de duas décadas na avicultura, a C.Vale, de Palotina, é a prova de que as cooperativas não estão para brincadeira quando se trata em diversificar os investimentos no setor de proteína animal. Ciente da vocação do Oeste do Estado em produzir peixes, a cooperativa inaugurou, no último dia 20, um abatedouro de 10 mil metros quadrados que irá processar até o final do ano que vem 75 mil tilápias dia. O investimento? Incríveis R$ 110 milhões.

Capacidade total – A capacidade total da estrutura é de 600 mil tilápias por dia. A novo abatedouro conta com tecnologia de oito países: Suíça, Islândia, Alemanha, Itália, Holanda, Japão, Estados Unidos e Brasil. Para garantir a alimentação dos peixes, foi investido R$ 28 milhões numa fábrica de rações com tecnologias suíça, norte-americana e brasileira, com capacidade de produção inicial de 200 toneladas por dia.

Linhas de produção – “Serão linhas contínuas de produção, semelhante ao que ocorre no frango. A principal novidade do projeto é um sistema de produção que desenvolvemos ao longo de 10 anos de pesquisa. As tilápias serão criadas num sistema de produção superintensivo. A principal vantagem da nova tecnologia é a possibilidade de alojar até 60 tilápias por metro cúbico de água, doze vezes mais que no sistema tradicional. Este sistema de produção foi patenteado pela C.Vale”, explica o presidente da cooperativa, Alfredo Lang.

Estratégia – A estratégia de Lang é muito clara: o abatedouro é uma importante alternativa de renda para os produtores. Por isso, a prioridade é dar a oportunidade de produzir tilápias para quem já é associado. Caso haja necessidade, pode-se ampliar o número de produtores, mas eles terão que se associar à C.Vale. “Isso serve para reduzir a dependência dos grãos, que estão mais sujeitos ao clima. Para a cooperativa, representará a possibilidade de incrementar o faturamento e reduzir as oscilações de receita próprias de empresas que atuam com a produção de grãos.”

Mercado interno – Inicialmente, esse volume de tilápias será comercializado no mercado interno. Mas como acontece com a carne de aves da cooperativa, a ideia posteriormente é conquistar os certificados internacionais de qualidade e exportar para os mercados mais exigentes do mundo. “Também vamos aproveitar os canais de venda que já distribuem a carne de frango. Vamos oferecer produtos in natura, mas também entraremos no mercado de pratos prontos para o consumo. Este é um segmento que está crescendo, já que as pessoas têm cada vez menos tempo para preparar as refeições”, contextualiza.

Volumes representativos – Por fim, Lang salienta a importância de chegar no mercado com volumes representativos. “É preciso ter grandes volumes de produção para ser competitivo. Acreditamos que o mercado seguirá em expansão porque é uma carne bastante saudável e porque há nichos que podem ser explorados”, complementa.

Meta é ultrapassar marca de 1 milhão de cabeças por dia – Com mais de 19,7 mil cooperados e com um faturamento em 2016 de R$ 6,8 bilhões, atualmente a C.Vale produz 530 mil frangos por dia. A meta é alcançar até o final de 2018 um processamento de 600 mil cabeças e, ao longo prazo, atingir a marca de 1,2 milhão de aves dia. “O aumento será gradual. Para chegar aos 600 mil frangos/dia não será necessário aumentar a estrutura física, apenas adequar os equipamentos”, projeta o presidente da cooperativa, Alfredo Lang.

Termoprocessados – Vale destacar que no mesmo parque industrial, em Palotina, a C.Vale possui uma indústria de termoprocessados, ou seja, produtos cozidos, fritos e assados prontos para o consumo. “Nossos frangos são produzidos em aviários climatizados, o que permite produzir com menos mortalidade e melhor conversão alimentar. A conversão alimentar é a quantidade de ração necessária para produzir um quilo de carne. No ano passado, exportamos 55% da produção”.

Faturamento – Até o final deste ano, a expectativa da C.Vale é fechar com um faturamento de R$ 7,34 bilhões, o que corresponderia a um crescimento de quase 8%. “O Paraná é o estado mais competitivo do Brasil na produção de frangos. Temos grande oferta da principal matéria-prima, que é o milho, e isso é fundamental se você quer ser competitivo. Justamente por isso, acredito que o Paraná vai aumentar sua participação tanto na produção quanto nas exportações nacionais de carne de frango.”

Um olho no peixe, outro no faturamento – Operando na cidade de Nova Aurora desde 2008, a evolução do abatedouro de peixes da Copacol prova com números expressivos o que as cooperativas esperam deste tipo de carne para o futuro. Com um investimento de R$ 55 milhões este ano, o processamento saltou de 70 mil para 140 mil tilápias por dia, tornando-se a maior planta de abate de peixes da América Latina. E vale dizer: desde a inauguração já foram aplicados mais de R$ 120 milhões apenas nessa mesma unidade. E olha que os peixes representam atualmente apenas 6% do faturamento da cooperativa. Sem dúvida, ainda há muito para crescer.

Fábrica de rações – Este mês, no dia 23, a Copacol ainda inaugurou a fábrica de rações para matrizes e de premix, na cidade de Nova Aurora. Os investimentos nesse caso atingiram a casa de R$ 40 milhões. “Vemos uma grande oportunidade de crescimento deste mercado (piscicultura), porque as pessoas procuram cada vez mais por estes alimentos saudáveis. Nossa estratégia é atender a crescente demanda e oferecer mais oportunidades de diversificação para os produtores associados”, salienta o presidente da Copacol, Valter Pitol.

Salto – Com o investimento, o número de produtores associados na piscicultura saltou de 140 para 210 em pouco tempo. A Copacol utiliza na planta frigorífica tecnologia de última geração para controle, monitoramento e processamento de sua produção de tilápias, que contempla um rígido sistema de controle informatizado e em tempo real, que proporciona a visualização e controle dos mais diversos parâmetros relevantes ao processo. “Após a ampliação da indústria para abate de 140 mil cabeças dia, a adoção de novas tecnologias e tendências se fez necessário. A instalação de máquinas e equipamentos de ponta nos oferece a automatização de boa parte do processo. Nossos equipamentos permitem que o processo de sangria, lavagem, descamação, descabeçamento, evisceração e embalagem dos produtos sejam feitos de forma automática e eficaz”, explica Pitol.

Produtos – Atualmente a produção da Copacol, no segmento de peixes, conta com um mix de produtos importantes e não por acaso é uma das cooperativas mais lembradas pelos consumidores do Estado. São diversos produtos ligados a tilápia, além de bolinho de bacalhau, camarão 7 barbas e vermelho pequeno, filé de merluza, posta de cação, sardinhas, filé de sardinha e cavalinha. “Hoje, vendemos para o Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Distrito Federal e São Paulo. (No mercado internacional) apenas a pele é exportada para a França”, elenca.

Projeção – Com todos esses investimentos e tecnologias empregadas na planta, o número de tilápias que serão processadas em 2018 é impressionante: 38,4 milhões. “A Copacol pretende fechar 2018 com um faturamento de R$ 4 bilhões”. Em 2017, a empresa deve fechar em R$ 3,65 bilhões, um crescimento de 12,2% comparado ao ano passado.

Frangos transformam commodities em valor agregado – Se os peixes representam hoje 6% do faturamento da Copacol, no caso da avicultura, os números são bem expressivos. O valor corresponde a 60% da movimentação total da cooperativa. Para atender a demanda da indústria, a Copacol conta atualmente com a participação de 820 produtores integrados, somados a mais 136 da Coagru (Cooperativa Agroindustrial União), de Ubiratã.

Aves – E se tem investimentos na piscicultura, no setor de aves não é diferente, afinal, a cooperativa exporta frangos para mais de 40 países e todas as regiões do País. Portanto, está em andamento também – com previsão de concluir até o final de 2018 – a duplicação do abatedouro de aves da Unitá, em Ubiratã. Um investimento de R$ 300 milhões que permitirá o aumento da capacidade de 180 mil para 380 mil aves até o início de 2019. “Com esse projeto de expansão, aproximadamente (mais) 300 produtores terão a oportunidade de ampliar e iniciar no negócio”, estima o presidente da Copacol, Valter Pitol.

Congelados – Uma das estratégias dessa unidade é o aumento da produção de itens IQF (congelados separadamente), como também o direcionamento em linhas de produtos temperados e apimentados, a diversificação de sabores diferenciados em produtos industrializados já existentes, e a ampliação do mix de vegetais congelados. “A atuação no varejo possibilita à cooperativa mais rentabilidade, tendo um caminho mais curto para que os produtos produzidos pelas nossas indústrias cheguem até o consumidor final. A produção de todas as atividades da cooperativa se convertem em sua maioria na produção de carnes, transformando commodities em produtos de valor agregado que chegam à mesa dos consumidores na marca da cooperativa, gera receita para empresa e possibilita ao cooperado mais renda e diversificação em sua propriedade”, complementa o presidente.

Fonte: http://www.portaldoagronegocio.com.br/noticia/agroindstrias-uma-sacada-com-a-proteina-animal-165303